VÍDEO: Entrevista com o diretor Michel Hazanavicius(“O Artista”, “Formidável”)

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Ganhador do Oscar de melhor diretor pelo seu sensacional “O Artista” – o qual quebrou todas as bolsas de apostas ao lançar um filme mudo/preto nos dias de hoje -, o francês Michel Hazanavicius veio ao Festival do Rio lançar o seu mais novo filme, “Formidável”, uma  transposição para a telona do livro “Um ano depois”, escrito pela ex esposa do diretor Jean Luc Godard (“Acossado”, “O Desprezo”, “Alphaville”), Anne Wiazemsky .

O filme recria a relação de Godard com Anne no período entre 1967 e 1970 no qual o diretor lança seu tratado político mais feroz nas telas, o longa “A Chinesa”, e na sequência, junta esforços ao grupo militante Dziga Vertov, com a meta de criar um cinema militante.

Abaixo a entrevista que fiz com Michel durante o festival e também o teaser do filme que estreou hoje nos cinemas:

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“Blade Runner: 2049”: Belo filme, mas com controvérsias

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Em 1982, após vários entraves artísticos entre o novato diretor Ridley Scott – que tinha “apenas” dirigido “Os Duelistas” e “Alien”- e todos os envolvidos na sua produção, “Blade Runner” foi lançado nos cinemas.

Considerando á época um filme um tanto estranho, incompreendido pela grande maioria do público que pagou ingresso nos primeiros dias de exibição, o novo filme do astro Harrison Ford – que já estava nos holofotes devido ao sucesso de “Guerra nas Estrelas” e “Caçadores da Arca Perdida” – afundou nas bilheterias. Com o passar dos anos, e a grande ajuda do advento do VHS e o surgimento das locadoras de vídeo, o filme foi sendo redescoberto, ganhou fama de cult e acabou virando referencia na seara cinematográfica.

Agora, 35 anos depois de quase ter se tornado uma mancha negra no currículo de Ford e Scott, a tão aguardada continuação chega às telonas para repetir novamente a façanha do seu antecessor: dividir opiniões.

“Blade Runner: 2049” chega com bastante pompa pra saciar a espera dos apaixonados pela saga do caçador de androides Rick Deckard (Ford) para finalmente descobrirem o que aconteceu com seu herói. Só que, como diria a velha máxima, a expectativa de irem com tanta “sede ao pote” pode acabar gerando longas horas de terapia – não é a toa que estou escrevendo num coffee break da minha segunda sessão -.

Bom, vamos aos pontos positivos primeiro para não acharem que a ida ao cinema está fora de cogitação: Com a idade dando certos sinais de cansaço criativo – vide seus últimos fiascos, ops, filmes e o desempenho ruim com crítica a público (“Alien: covenant”, “Exodus”, “O Conselheiro do Crime”) , Ridley Scott foi esperto e resolveu retomar a saga de Deckard apenas como produtor, passando a direção para o seu “pupilo”, o canadense Dennis Villeneuve – que vem mostrando sua genialidade em seu oficio filme após filme (“A Chegada”, “Sicario”, “O Homem Duplicado”, “Os Suspeitos” e “Incêndios”).

Com seu olhar preciso, delicado e criativo, Villeneuve pegou o leme de Scott com uma precisão impar, trazendo ao seu lado seu fiel braço direito, o excepcional diretor de fotografia Roger Deakins, e nos deu de presente uma aula magna de como se fazer um espetáculo visual de tirar o fôlego. Acrescido então de um elenco espetacular que vai do genial Ryan Gosling (como o novo caçador), passando por Jared Leto, Robin Wright, Dave Bautista, Ana de Armas, até chegar na estrela magnânima do espetáculo, Harrison Ford – numa das suas melhores performances em toda sua carreira-, o filme tinha tudo para ser tão bom quanto o original, ou até melhor. Mas não é.

Eis que vem o quesito roteiro. O bom e velho calcanhar de aquiles entra em ação. Com uma trama a principio banal, mas que ganha contornos interessantes durante o seu decorrer, retratando a importância da liberdade, do sacrifício e da família – lembrando que o filme tem quase 3 horas de duração-, ela acaba se diluindo e ficando um tanto confusa e arrastada, culminando num final que…deixa pra lá – no spoilers allowed!-.

No somatório final, sem dúvida nenhuma o longa vai gerar discussões. Seja elas positivas para os fãs do original que não vão se incomodar com a venda de gato por lebre que o trailer do filme passa, quanto para aqueles que inconscientemente adentraram o universo utópico à sua frente e ficaram esperando o famigerado algo mais que no fim das contas nunca há de chegar.

“Mãe!”: Ame-o ou deixe-o

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Se pudesse definir a excelência e maestria do diretor americano Darren Aronofsky em apenas dois filmes eu diria “Réquiem para um Sonho”(Requiem for a Dream) e “O Lutador”(The Wrestler). Duas histórias impactantes, mimetizadas sem firulas como duas odes à sétima arte. E não, não esqueci “Cisne Negro” (Black Swan). Esse, assim como “Pi”(Pi), bateu na trave.

Mas, como todo bom diretor, os infortúnios acontecem. Para Aronofsky eles vieram nas formas calamitosas de “Fonte da Vida”(The Fountain) e “Noé”(Noah). Duas obras esquecíveis, onde uma certa megalomania dominava seu lado artístico. Ou melhor, ainda domina. “Mãe!” (Mother!), seu mais novo longa, que o diga.

Escrito e dirigido pelo próprio Darren, o filme mais parece algo que foi concretizado para simplesmente chocar – e põe chocante nisso-, com o intuito de causar um frisson polêmico, do que algo realmente digno de reverência. Mas, sim, existe algo interessante no meio dessas duas horas de projeção, porém, esse algo mais – não posso dar spoiler- se desgasta com o excesso de situações literalmente perturbadoras que, com certeza, vai levar muitos espectadores a deixarem a sala de cinema antes do término.

Mesmo com um elenco estelar que traz nomes como Jennifer Lawrence – excelente-, Javier Bardem, Ed Harris e Michelle Pfeiffer, a história do casal que tem sua relação afetada quando inesperados visitantes adentram em sua casa vai ser uma opção de consumo de difícil digestão.

Assim, com uma boa dose de pretensão, Aronofsky faz de sua “Mãe!” um produto radical alegórico que aflora nossa sensibilidade, seja para o bem ou para o mal, e o coloca diante de uma singela constatação acerca de sua originalidade artística ao final da projeção: me ame, ou me deixe.

“Feito na América”: Entrevista exclusiva com o diretor de fotografia César Charlone

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Charlone, sua “equipe de luz”, Tom Cruise e Doug Liman no set de “Feito na América”.

Fotógrafo uruguaio radicado no Brasil desde 1970, quando veio estudar na Escola Superior de Cinema São Luiz, em São Paulo, César Charlone começou a trabalhar em 1973, como assistente de Dib Lutfi e Mário Carneiro. Na década de 80 fez a fotografia de filmes como “O Homem da Capa Preta” e “Doida Demais”, de Sérgio Rezende, e “Feliz Ano Velho” de Roberto Gervitz. Na década de 90 participou de um grande campeão de bilheteria, “Como Nascem os Anjos”, de Murilo Sales, mas seu nome foi alçado de vez não apenas nos holofotes do cinema brasileiro, como no mundo todo, junto ao diretor Fernando Meirelles quando fizeram a obra prima “Cidade de Deus”. Dai em diante surgiram convites para filmar pelo Brasil afora e no exterior.

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Charlone e Doug Liman com parte de sua equipe na parte traseira de um dos aviões usados no filme. Foto: Javier Hernandez

Seu último filme, “Feito na América”(American Made), o levou a participar de uma das melhores experiências de sua vida, segundo o próprio, ao dividir o set com o consagrado diretor Doug Liman (“A Identidade Bourne”, “Mr e Mrs Smith”) e o mega astro Tom Cruise (“Top Gun”, “A Cor do Dinheiro”, Etc, etc.) – por sinal, a segunda parceria de Tom e Doug depois do thriller de ficção ” No Limite do Amanhã” ( Edge of Tomorrow).

Numa entrevista exclusiva via aúdio do whatsapp – ele está na Argentina preparando seu  próximo longa com o Fernando Meirelles- , Charlone conta um pouco sobre essa oportunidade incrível de trabalhar com essas duas feras; como surgiu o convite; como era o set e muito mais – vídeo/ aúdio da entrevista e depois o trailer do filme.

 

 

Val Kilmer: Minha entrevista exclusiva com o ator

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Em Outubro do ano passado, Michael Douglas declarou que seu amigo Val Kilmer estava enfrentando um câncer na garganta. Por sinal, o mesmo que o próprio Douglas teve e do qual ficou curado depois de um intenso tratamento. Porém, Kilmer negou a informação dizendo que seu colega estava mal informado, pois o que ele tivera fora apenas um simples nódulo.

Meses se passaram e, para surpresa de todos, a questão volta à tona, só que dessa vez na declaração do próprio Val, dizendo que realmente teve a doença, mas já estava curado e se recuperando muito bem.

Em uma entrevista exclusiva, feita por troca de e-mails durante alguns meses, dentre outras questões , Kilmer falou sobre o assunto: “Estou muito grato por todas as orações e pensamentos positivos de todo o mundo. As pessoas que sabem que sou um “cientista cristão” fazem a suposição de que de alguma forma eu corri algum risco. Mas muitas pessoas foram curadas por orações durante toda a história. E muitas pessoas morreram por coisas feitas pela medicina moderna. Eu tive a honra de conhecer o Dr. Bernard Lown,, um homem que é inventor do refribilador. A máquina com “pás” que trazem as pessoas de volta para o mundo dos vivos… Provavelmente responsável por trazer mais pessoas de volta da morte do que qualquer pessoa no século 20. Perguntei pra ele qual era a coisa mais importante para um médico fazer quando um paciente teme por sua vida. Ele começou a chorar , sem perder a voz, se inclinou sobre mim e disse: “Dê carinho. Isso é o que eu digo a todos os estagiários. O amor. O amor cura. Mais que qualquer outra habilidade, os incentivo a amar a vida daqueles que são confiados a salvar.” Bem, isso é o que está no cerne da compreensão da Sra. Eddy sobre os ensinamentos de Jesus. Ela ensinou a seus alunos como curar desafios físicos e mentais compreendendo o imenso poder do amor. Eu vi pessoas recusarem o amor. Eu mesmo recusei quando era mais jovem. Eu ainda escutava que se curava através de confiar unicamente na oração, e isso desafiou muito a minha fé. Não importava nos dias de Jesus se o paciente acreditava. Não importa hoje. O amor não se importa com nossos minúsculos pensamentos humanos. É assim que eu entendo de qualquer maneira. Eu provavelmente tentei convencer as pessoas quando eu era mais jovem. Eu tento me ocupar de meu próprio negócio agora que eu sou mais velho. Eu também espero que eu nunca recuse Amor novamente. Era uma sensação indizível de apoio universal enquanto eu estavive no hospital. Até dois de meus médicos quiseram rezar comigo, por mim.”

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Nascido em Los Angeles, nos EUA, filho de um distribuidor de equipamentos aeroespaciais e de uma dona de casa, Kilmer cresceu com seus dois irmãos numa fazenda, depois de serem despejados da casa onde moravam, junto ao aeroporto de Los Angeles, devido a construção de uma nova pista. “Eu nasci em 1959, de parto normal. Eu e meus irmãos passamos a infância literalmente abaixo do aeroporto, no final da nova pista, em Playa Del Rey. Fomos despejados quando começaram a construir a nova pista. Você pode ver o esqueleto das antigas ruas do bairro quando decola de avião. Minhas memórias de infância são a névoa sob a Oceano Pacífico com a areia tão quente que levantava a neblina a um palmo do chão. Os aviões passando sobre nós e nossa babá, a Lulu, e minha mãe, na areia. E meu primeiro momento rock and roll foi escutar “I wanna hold your hand” dos Beatles, num pequeno rádio no ônibus que me levava pra escola – foi maravilhoso. Ah, também lembro de ficar preso num engarrafamento devido a um show do “The Doors”, no “The Greek Theater”, à caminho do nosso exílio no vale”, lembra Kilmer. “ Uma coisa engraçada nessa época foi meu pai ter contratado um cara alto e barbudo, estilo hippie, veterano do Vietnã, pra cuidar dos filhos. Ele tinha mania de ficar explicando com detalhes gráficos os códigos das letras de rock and roll. Na verdade, meu pai o contratou pois ele tinha um Mustang vermelho e achou que íamos nos amarrar em andar nele. Engraçado, ele fumava maconha e tinha três namoradas”.

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Na adolescência, Val resolveu seguir seu amor pelas artes e entrou na conceituada “Julliard”, em Hollywood, para estudar atuação. Ele começou sua carreira nos palcos fazendo várias peças, como “Hamlet”, de Shakespeare. Sua estreia no cinema foi em 1984, no filme “Top Secret”, de Jim Abrams e David Zucker, interpretando Nick Rivers, um cantor de rock. O filme foi um grande sucesso e se tornou um clássico cult, adorado pelos fãs do besteirol. Na sequência, pintou uma oportunidade que o deixou meio desconfiado, mas, devido à equipe que o cercaria, aceitou fazer o filme que iria coloca-lo definitivamente nos holofotes e mudaria sua vida para sempre . “Eu não queria fazer ‘Top Gun’ porque a politicagem era muito absurda. Mas eu estava muito feliz pelo Tony Scott, que eu amava muito, e por Simpson e Bruckheimer, os produtores. No final acabou saindo tudo bem. Você faz uma família em cada filme. As pessoas falam que eu e o Tom Cruise não nos dávamos bem, mas isso é pura mentira”, ressaltou o ator, que acabou fazendo parte de uma das maiores bilheterias da década de 80. Depois, se aventurou em dois filmes feitos para a tv, “Os Assassinos da Rua Morgue” e “1000 elos – O Preço da Liberdade”, sendo que no segundo atuou com a brasileira Sônia Braga. “ Trabalhar com Sônia foi incrível. Nós riamos muito. Nos divertimos. Eu a amo, ela é incrível”, elogia a colega.

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Sua volta à telona foi em “Willow”, de Ron Howard, outro sucesso de bilheteria do qual guarda ótimas memórias. “ Foi no set desse filme que conheci minha mulher e onde tive a oportunidade de trabalhar com George Lucas, que criou e produziu o filme. Então foi incrivelmente especial. E os anões se divertiram muito!”, conta. Com seu nome seguido de altos elogios em matérias sobre sua atuação e, claro, sua beleza – que deixava as adolescentes malucas na época- , sua carreira estava num crescente, cujo ápice foi em 1991, com um filme que não apenas interpretava, mas, literalmente, encarnava o vocalista Jim Morrison, em “The Doors”, do diretor Oliver Stone.

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Além do “physique du rôle” – como diriam os franceses- e os trejeitos perfeitos de Jim, Kilmer chegava ao ápice da sua performance quando soltava a voz cantando clássicos como “Light My Fire” e “Break On Through”, chegando a deixar em dúvida os próprios músicos originais da banda ao ouvirem as gravações, se era Val ou Morrison que escutavam. “Esse filme foi como um sonho louco. Oliver Stone é radical e inspirador. Eu trabalhei sem descanso durante 13 meses, de 15 a 18 horas por dia. É a única maneira de se fazer uma performance completa – e tenho muito orgulho de ter cantado todas as músicas no filme ao vivo. Eu fiz ópera em Julliard, e uma década de treinamento vocal sério para fazer Shakespeare, então eu iria trabalhar com treinador vocal de Michael Jackson para ampliar a minha gama de alcance vocal. Em seguida iria escutar fitas de Jim gritando e cantando ao vivo. Deixei o treinador doido. Ele tentava mudar e eu sempre tinha que explicar: “não, é assim que queremos”. E todos os dias, por meses, eu trabalhei com Paul Rothchild, o produtor de The Doors, e seu engenheiro, gravando álbuns inteiros do Doors. Nosso objetivo era tornar-me tão bom que eu poderia ser capaz de ter algumas músicas feitas ao vivo no filme. Um dia Paul se assustou tanto comigo que saiu e se recusou a trabalhar. Ele estava nervoso e não olhava para mim. Depois, quando ele se acalmou o suficiente, disse: “eu não sei quem lhe contou essa história, porque eu era o único lá …” Explico: a canção que Paul tinha colocado eu odiava e não queria gravar , ou pelo menos não naquele dia, e aparentemente o que eu disse foi exatamente o que Jim dissera à Paul quando eles deveriam gravá-la. Isso o apavorou. Tentei explicar que eu não estava “atuando” , era apenas como me senti sobre a canção. Então fui dar uma caminhada para dar a Paul uma chance de se recompor. Quando voltei, pensei em algo para mante-lo animado e trabalhando e corri para a cabine de gravação: “coloca ‘The End’ …” Ele reverentemente me disse que não, que eu não podia canta-la. Nós entramos em uma discussão leve e depois ele disse que não é que não quisesse que eu cantasse, e finalmente disse:’Val, você não pode gravá-la. Ninguém pode. Nem mesmo Jim podia. Ele só gravou uma vez e isso é o que está no registro”. Mas conversamos, ele repensou e enfim pediu para colocarem a música; e eu arrebentei. Paul chorou imediatamente. Eu tive que olhar para longe, mas não houve jeito, isso acrescentou mais emoção para o meu desempenho. Eu não mandei bem em 2 momentos. Mas quando Paul finalmente pôde falar, disse: “Val, eu juro por Deus, Jim sussurrou em 2 partes e tivemos que acertar para corrigi-las. E foram exatamente nos mesmos lugares que você “.

E, humildemente, acredito que esse continua a ser o melhor filme de rock and roll já feito. Tinham que se fazer mais filmes de rock. É um mundo muito luxurioso – muito amor e drama. É estranho. Mas nós fizemos nosso trabalho com uma energia implacável, e isso aparece na tela” – conta, amarradão.

 

Com o grande sucesso, veio também um lado obscuro da fama, onde ele acabou gerando um burburinho onde se dizia ser uma pessoa difícil no set. Fofocas à parte, Kilmer passou a década de 90 transitando por filmes medianos como “Thunderheart, “The Real MCcoy” , “Wings of courage” e o tiro na água , “Batman Forever”, do Joel Schumacher; e mega produções que foram sucesso de bilheteria como “True Romance”, de Tony Scott, “Tombstone”, de George P. Cosmatos e “Heat”, de Michael Mann. “ Em “Heat”, até os ensaios foram inestimáveis: “atirar por cima da cabeça do Robert De Niro e fazer palhaçadas com Al Pacino no camarim foi incrível. Só de ter a oportunidade de poder chama-los agora por ‘Al’ e ‘Bob’ pelo resto da minha vida, é demais! Houve mais de 1000 filmes com policiais e bandidos passados em Los Angeles, mas tenho certeza de que esse filme, por causa de Al, Bob e Michael, está entre os Top 5. Uma curiosidade importante: eu sempre manuseei armas desde pequeno, por causa do meu pai que, quando eu era criança, já usava armas para caçar . Então continuei praticando. No filme usei uma carabina que já conhecia e com que atirava desde os anos 80. Por sinal, foi por saber manusear armas tão bem que, quando Kubrick começou a fazer os testes para ‘Nascido para Matar’, fiquei doido para ser o protagonista. Filmei um teste para ele onde eu desarmo, limpo e armo de volta minha arma sem nem sequer olhar pra ela. Eu queria que o Kubrick lembrasse de mim. E lembrou, pois ele acabou adiando novos testes por 3 meses. Foi o que me disseram. Só que acabei não pegando o papel”, recorda.

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Na sequência, depois de participar do conturbado fracasso “A Ilha do Dr. Moreau”, onde contracenava com o lendário Marlon Brando – em um dos seus últimos papéis -, sua carreira foi degringolando devido a altos e baixos. Continuou fazendo filmes como protagonista, como “A Sombra e a Escuridão”, ao lado de Michael Douglas, “O Santo”, baseado na série de mesmo nome que foi grande sucesso na tv, “The Salton Sea”, “Crimes em Wonderland”, “Planeta Vermelho”, “Spartan” e a animação “Príncipe do Egito”, até começar a só fazer papéis menores como em “Pollack”, “Dead Girl”, “Masked and Anonymous”, “Perfeitos no Amor” e “Alexandre”, culminando em atuar em filmes B, como “”Hard Cash”, “Blind Horizon” e “Caçadores de Mentes”.

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Seu nome retorna aos holofotes no começo do ano 2000, com pompa e tudo, recebendo altos elogios da crítica e público pelo seu papel de um detetive gay, em “Kiss, Kiss, Bang, Bang”, primeiro filme do roteirista Shane Black (da série “Máquina Mortífera”). Nele, contracena com Robert Downey Jr. Porém, mesmo com esse respiro e um indício de reviravolta na carreira, suas escolhas continuaram sendo protagonizar produções que não foram bem nas bilheterias e pequenas participações, tanto em filmes quanto em séries de tv e filmes B.

Mas isso não parece preocupa-lo, pois, mostrando bastante desapego a coisas materiais, ao ser perguntado sobre o que gosta de colecionar, ele diz simplesmente, “Boas pessoas”, e cita umas histórias Hollywoodianas nas quais o importante é se divertir e curtir o momento: “ Uma vez eu estava na casa do Bob Dylan, em Malibu, e resolvi fazer uma brincadeira: fui pro meio da rua, parando o trânsito, vestido igual ao Jim Morrison, e fiquei subindo nos carros e dando notas de cem dólares para as pessoas. Lembro também de ficar rindo tanto com Marlon Brando na sala da sua casa que quase me engasguei. E de tocar ‘Yesterday’, com o Paul McCartney num evento de caridade”.

NEB January, 14 2007

Depois desse hiato para cuidar da saúde, Kilmer mostra que vontade de produzir e atuar é o que não falta. Não é a toa que ele conseguiu se reinventar, voltando ao teatro – com muitos elogios na mídia americana – interpretando o escritor e humorista Mark Twain. Sua performance, além da preparação e treinamento dedicado no quesito atuação, recebeu maquiagem perfeita que o deixava idêntico a Twain. “Eu amo interpretar Mark Twain! Ele é tão ultrajante e andava sempre na corda bamba, digamos assim, sem preocupação nenhuma. Ele é um mestre da comédia. Eu não poderia desejar nada melhor do que ser ovacionado no palco pelo público. Ter que parar algumas vezes em cena devido a risos e aplausos é uma doce recompensa por 17 anos de trabalho. Não estou me gabando, mas, como diria Twain, ‘eu nasci modesto, mas fui desgastando’, brinca. Contudo, devido a recuperação do câncer que teve na garganta e afetou sua voz, Kilmer precisou parar de atuar no palco; mas como seu desejo era de levar a história de Twain para os cinemas, acabou filmando a peça. Assim, fez uma turnê pelos EUA exibindo o filme para o público e subindo ao palco ao final da exibição para falar sobre o processo da peça e responder eventuais perguntas. “Eu estava procurando um filme para dirigir e encontrei uma história original envolvendo dois autores que admiro muito, o Twain e o Mary Baker Eddy. Ambos são gênios. Resolvi então fazer um roteiro sobre a obsessão de Twain por Eddy. Os desafios de interpretar um gênio são muitos, mas o desafio principal pra mim foi escrever um monólogo que estivesse à altura de Twain. A idéia de exibir a peça em filme também dá oportunidade não só de não precisar interrompe-la pra um intervalo mas também de agradar as pessoas que não costumam ir ao teatro. Estou muito orgulhoso e feliz com esse resultado”, conta.

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E mostrando como Kilmer é um guerreiro que pega forças para seguir em frente pelo amor à arte, ele também se prepara para lançar três filmes esse ano, dentre eles “Song to Song”, novo filme do Terrence Malick. “Fiz quatro filmes ano passado. Um com meu querido amigo Michael Fassbender, uma famosa história criminal chamado ‘Snowman’, filmado na Noruega e um outro chamado ‘The Super’, um suspense filmado em Nova York. Já o filme sobre Mark Twain, chamado “Cinema Twain”, gostaria de levar pro Brasil o mais rápido possível. E, claro, o “Song to Song”, do Terrence Malick. Eu amo o Malick e também sou muito amigo do mexicano Chivo Lubezki (diretor de fotografia). Ter a oportunidade de interpretar um personagem tão escandaloso como essa pequena participação, contracenando ainda com a maravilhosa e talentosa Rooney Mara, assim como o belo e generoso Fassbender, foi um sonho. Eu tinha deixado meu cabelo crescer quando fiquei escrevendo o roteiro da peça do Twain por alguns anos, e essa participação no filme seria uma oportunidade perfeita para corta-lo. E foi o que fiz, em cena, no palco. Terrence adora sacrifícios, então essa minha atitude seria um lindo sacramento para o Rock and Roll. Eu também sou apaixonado pela Cate Blanchet, então voei até o Texas só pra poder ficar conversando com ela no camarim. Ela é um milagre. E ficar passeando conversando com meu amigo Ryan Gosling, que não tem o direito de ser bonito e talentoso! É fácil odiá-lo (ri). Mas ele o encanta facilmente. Elenco absurdo. Foi um privilégio!”, diz.

Assim, mesmo passando por altos e baixos e pelo sério problema de saúde, Val Kilmer segue em frente fazendo o que ama e abraçando novos projetos, como essa possível continuação de “Top Gun”. “Iria amar. Lembre-se: meu personagem é o TOP GUN!”

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“A Torre Negra”: um desperdício de tempo e dinheiro.

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Take 1, o início: Analisando o poster vemos Idris Elba e Matthew McConaughey, dois excelentes atores, dividindo os créditos de protagonista pela primeira vez no mesmo filme. Interessante. Filme esse cujo roteiro é baseado numa obra literária do consagrado escritor Stephen King, que já nos brindou na telona com clássicos como “O Iluminado”, “Conte Comigo”, ‘Um Sonho de Liberdade”, entre outros. Muito interessante. A direção, mesmo não sendo um nome famoso, deixou um animo no ar pois ficou por conta do dinamarquês Nikolaj Arcel, que nos brindou em 2012 com o excelente “O Amante da Rainha”. Bom, com certeza, diversão será garantida. Corta!

Take 2, o meio: Com pretensão de fazer um longa de ficção arrebatador, os engravatados de Hollywood devem ter batido cabeça para bater o martelo na hora de definir qual roteiro filmar – já que a história se passa em nada mais nada menos do que sete livros- e resolveram que o mesmo não ia passar na mão apenas de um, mais de quatro roteiristas ( Akiva Goldsman, Jeff Pinkner, Anders Thomas Jensen e o próprio diretor) para levar à telona a seguinte trama:

Num mundo além do que vivemos, o último pistoleiro, Roland Deschain (Idris Elba), está preso em uma eterna batalha com Walter Dim, também conhecido como o “Homem de Preto” (Mathew McConaughey), e está determinado a impedi-lo de derrubar a Torre Negra que conecta o universo.

Take 3, o fim: Com um roteiro bem confuso, personagens pessimamente construídos e diálogos desastrosamente mal redigidos, o filme mais parece um rascunho rasurado do que, talvez, poderia ter sido do que um produto finalizado com a qualidade que uma obra de King merece.

“O Estranho Que Nós Amamos”: Bela superficialidade

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Sofia Coppola é uma daquelas pessoas que, mesmo tentando se esquivar ao máximo, vão ser sempre “perseguidas” pela sombra do pai. Uns podem dizer que ela é tão boa quanto ele, enquanto outros são categóricos em afirmar que ainda falta muito arroz com feijão para chegar aos pés do seu patriarca. Para mim, a querida filha do mestre Francis, com toda sua pompa e sutileza, ainda se encontra na coluna do meio. Sim, seus dois primeiros suspiros na seara autoral da direção– “Virgens Suicidas” e “Encontros e Desencontros”- são duas obras sublimes, de fato. Porém, depois dessa dobradinha que colocou seu nome nas marquises mundo afora, Sofia parece ter colocado sua criatividade em “ponto morto” e fez apenas filmes superficiais, monótonos e sem muito a dizer.

Tentando resgatar os aplausos de outrora, a “queridinha do papai” resolveu poupar um pouco de trabalho e entrou para o seleto grupo de diretores que fazem do remake a solução para o marasmo criativo. Seu pretensioso alicerce de salvação é a refilmagem de “O Estranho que nós Amamos” (The Beguiled), clássico dos anos 70, a terceira das quatro dobradinhas do diretor Don Siegel com Clint Eastwood – as outras foram “Meu nome é Coogan”, “Os Abutres tem Fome” e “Dirty Harry”.

Na trama, em plena Guerra Civil americana, um soldado ferido, John McBurney (Colin Farrell), é encontrado na floresta pela jovem Amy (Oona Laurence). Ela o leva para casa onde mora, um internato de mulheres gerenciado por Martha Farnsworth (Nicole Kidman). Lá, elas decidem cuidar dele até sua recuperação e, em seguida, entrega-lo às autoridades. O problema é que, aos poucos, cada um das mulheres vai se interessando por ele, especialmente Edwina (Kirsten Dunst) e Alicia (Elle Fanning).

Comparando com o filme de Siegel – que é muito mais fiel ao livro que inspirou o filme – a de Sofia deixa muito, mas muito a desejar. Tirando os aspectos estéticos, como a fotografia e direção de arte – que são maravilhosos-, o filme peca pela caretice fofa irritante que ela resolveu imprimir na tela. Dentre tantas coisas cruciais na versão original que ela se quer chegou a esboçar referência– como as cenas de apelo sexual e as de violência – ela ainda tirou todo o rico desenvolvimento da personagem Martha e a história do relacionamento incestuoso dela com seu irmão, bem como os flashbacks que revelaram a verdadeira natureza conivente de John McBurney e o aspecto de fantasia sexual desses personagens, que foi a base para seus motivação na história. Além disso, a direção dos atores deixa a desejar pelo simples fato deles, muitas vezes, parecerem apenas estarem recitando seus diálogos decorados do que qualquer outra coisa.

Assim sendo, de uma maneira irônica, com mais essa pisada de bola, a senhorita Coppola mostra que as palavras coragem e arriscar estão definitivamente longe do seu alfabeto cinematográfico, constatando mais uma vez que a única herança que ela herdou do seu pai foi apenas o sobrenome.