“Pantera Negra”: um acontecimento cultural

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Em pleno 2018 ainda existe quem acredite na fantasia de inferioridade negra. Há ainda quem não saiba que o homem mais rico da história mundial foi o imperador africano Musa I no século XIV. E há quem ache qualquer oportunidade de se qualificar a luta contra discurso racista apenas como um “mimimi”.

E é por isso que, para a cultura pop, “Pantera Negra” (Black Panther), da Marvel Studio (Disney),  vem como o filme de origem de um super-herói mais importante do estúdio. E, apesar de algumas pessoas insistirem que a “nova onda de representatividade” será o fim dos filmes desse gênero, a personagem africana figura nos quadrinhos da Marvel desde julho de 1966 mantendo desde então importante protagonismo nesta mídia. Portanto, nada mais justo que ganhasse um filme solo.

Dirigido por Ryan Coogler e com roteiro de Joe Robert Cole, o filme tem como seu protagonista o ator Chadwick Boseman no papel de T’Challa, o novo Rei de Wakanda. O personagem já havia aparecido em “Capitão América: Guerra Civil”, onde partiu para se vingar do antagonista Zemo pela morte de seu pai, o Rei T´Chaka. Porém, ao confrontar o vilão, em vez de mata-lo, tem uma epifania de nobreza e dignidade e o entrega às autoridades. E é nesse momento que tal atitude o diferencia de cara das personagens do filme (Capitão América, Bucky o Soldado Invernal e o Homem de Ferro), todos mais preocupados com seus problemas e questões pessoais do que com heroísmos.

Atrama parte de onde Guerra Civil deixou a personagem: T´Challa tem que passar por um ritual de combate para assumir o lugar de seu falecido pai e assim herdar seu trono. Seu reino, Wakanda, é mundialmente conhecido por ser apenas um país de terceiro mundo de fazendeiros, mas, como foi visto em “Vingadores: Era de Ultron” e no próprio “Guerra Civil”, esconde um importante segredo: é a nação mais rica e avançada de todo mundo, bem no meio da África, onde, num passado remoto, caíra um meteoro de puru Vibranium (metal do qual o escudo do Capitão América é feito). O filme começa com uma linda animação que mostra como as cinco tribos que compõem o reinado de Wakanda decidem esconder-se do resto do mundo para manter suas riquezas e tradições.

São apresentadas então as demais personagens saídas diretamente dos quadrinhos: Danai Gurira, que já havia aparecido em “Guerra Civil” como Okoye, volta agora com uma versão muito mais poderosa da líder das Dora Mijare, o grupo de elite feminino de guerreiras Wakanda; Lupita Nyong´o como Nakia, dá corpo a uma personagem bastante importante para T´Challa, Michael B. Jordan como o amargurado e poderoso vilão Erik Killmonger; Daniel Kaluuya como W’Kabi, o responsável pela fronteira e antigo amigo de T´Challa; Letitia Wright é Shuri, a irmã do novo Rei e princesa herdeira de seu trono, que cuida da parte tecnológica do super-herói (rivalizando o gênio do Homem de Ferro com muitos mais recursos), Angela Bassett como a digna e vistosa Rainha Mãe Ramonda; Martin Freeman retorna também de “Guerra Civil” como o Agente da CIA Everett K. Ross, assim como Andy Serkis que já havia aparecido em “Era de Ultron” no papel do contrabandista de Vibranium Ulysses Klaue, o Garra. O filme ainda conta com Winston Duke como M’Baku, o líder tribal e opositor do novo Rei e, claro, destaque para Forest Whitaker como Zuri, o sacerdote e zeloso amigo do antigo rei.

Tomando tempo para contar a história, sem o ritmo alucinado e fragmentado de outros filmes de origem recentes do gênero, cria-se um tributo as várias Áfricas que figuram na sofisticação dos trajes, dos adornos, dos visages e nas referências visuais no futurismo que permeia o ambiente da ficcional Wakanda.

O filme emociona em alguns pontos, eletriza em outros e deixa bastante satisfeito todos que o assistem. Plateias de africanos e afro-descentes de todo mundo ocupam as salas de cinema para curtir, chorar, ovacionar e aplaudir de pé o seu Super-Herói e eles têm todas as outras etnias como companheiros para celebrar a importância de se aceitar e festejar as diferenças, igualmente bradando: “Wakanda para Sempre”.

Crítica de Daniel Braga.

 

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“Todo o Dinheiro do Mundo”: nada a declarar

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Depois de tentar retomar a franquia Alien com sua sagacidade de outrora e meter os pés pelas mãos, Ridley Scott parecia ter tomado tenência ao passar a batuta da direção do novo Blade Runner ao seu pupilo Dennis Villeneuve e ficar só no cargo de produtor. Para alguns ele já demonstrava cansaço ocupando a cadeira de diretor, para outros, como eu, era preciso ele voltar do espaço sideral -seus últimos 3 filmes se passam lá- e pisar em terra firme capitaneando um projeto novo e inusitado. Eis que surge “Todo o Dinheiro do Mundo” (All The Money in The World), baseado na história real do sequestro do neto de um dos homens mais ricos do mundo, Jean Paul Getty, e recusa dele em pagar o resgate.

Porém, o que tinha tudo para ser o tapa de luva de pelica de Scott naqueles que achavam que ele já não é mais o mesmo, acabou sendo um tiro pela culatra e deixou muito, mas muito a desejar.

Depois de conseguir aumentar a expectativa de crítica e público ao fazer uma      “troca de atores” aos 47 do segundo tempo , quando resolveu refilmar as cenas nas quais o personagem de Jean Paul Getty era interpretado por Kevin Spacey e troca-lo por Christopher Plummer – devido as várias acusações de assédio sexual que vieram à tona contra Spacey- , Scott parecia querer deixar claro que estava para lançar seu filme de redenção a qual todos esperavam e nada poderia estragar sua festa.

Contudo, o que se vê é um filme mediano, pra lá de arrastado, o qual parece ter sido filmado com freio de mão puxado, tanto no quesito roteiro – com personagens superficiais e diálogos sem graça – quanto de direção – estilo feijão com arroz-. A única interpretação que merece elogios é, curiosamente, a de Plummer, o substituto, com seu minimalismo ímpar – não é à toa que conseguiu uma indicação ao Oscar. Mark Whalberg e Michelle Williams ficam a ver navios.

No fim das contas , parece mesmo que Scott nunca vai conseguir sair do mar de lama criativa no qual se meteu há anos e vai continuar lutando por um suspiro de elogio a cada filme que lança até chegar o momento no qual o melhor a fazer será se reiventar ou definitivamente jogar a toalha.

“Me Chame Pelo Seu Nome”: uma obra de arte

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O faro inato do produtor brasileiro Rodrigo Teixeira vem se mostrando cada vez certeiro com suas escolhas em apostar nos mais variados gêneros de filmes e conseguir agradar tanto os críticos quanto o público. Seu último tiro certo, ou melhor, gol de placa, é o sensacional “Me Chame Pelo seu Nome” ( Call me By Your Name).

Dirigido com extrema delicadeza pelo italiano Luca Guadagnino, a história de amor entre dois homens, na verdade, entre um homem maduro, Oliver (Armie Hammer- excelente), e um jovem adentrando a puberdade, Elio (Timothée Chalamet – sensacional), é de uma sensibilidade ímpar.

Filmado inteiramente no norte da Itália, o filme possui uma fotografia singular, onde a beleza da natureza se complementa com a exuberante arquitetura de época, seja da casa da família de Elio ou da pequena vila onde toda família transita.

O roteiro, escrito pelo consagrado James Ivory ( “Vestígios do Dia”, “Jefferson em Paris”, dentre outros), baseado no livro de André Aciman, a princípio, podemos dizer, não tem um “plot” original. Quem nunca viu um filme onde um homem mais velho se apaixona por uma jovem – filha de um amigo, de preferencia- numa viagem de verão na casa do pai dela, levante a mão? Pois bem, mas essa história de amor em questão, além de se passar entre dois homens, possui diálogos e situações muito originais, muitas até totalmente inesperadas.

Esse é um tipo de filme que discorrer em palavras sobre sua extrema beleza – em todos os sentidos – não vai se quer chegar perto da experiência de vê-lo na telona. Uma experiência única que vai aguçar todos os seus sentidos, levando aqueles que ainda resistem com certo preconceito a acordarem para o mundo à sua frente.

“O Rei do Show”: apenas um esboço

 

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Desde 2009, Hugh Jackman sonhava interpretar na telona o lendário “showman” P.T. Barnum, um empresário do ramo de entretenimento norte-americano responsável por fraudes famosas, que acabou fundando o circo que viria a se tornar o mundialmente conhecido “Ringling Bros. And Barnum and Bailey Circus”.

Quase dez anos depois, nos moldes de um musical, Jackman finalmente conseguiu realizar seu sonho. Porém, ele não contava com um ralo traiçoeiro logo à frente.

 Sob a batuta do diretor estreante Michael Gracey, o projeto tão sonhado por Jackman acabou se tornando um filme tão raso, mas tão raso – em todos os sentidos-, que a sensação que temos durante toda a projeção é que apareceria um personagem quebrando a quarta parede (que é o que gostaríamos que acontecesse) e diria: “Ei pessoal, vocês acharam que isso era sério? Claro que não! Vamos voltar no tempo e começar tudo de novo. Só que agora com ‘punch!’”

 Desde a direção frouxa, com cenas cantadas, coreografadas e dirigidas como se tivessem sido inspiradas em um livro de receitas da Bela Gil, passando (batido!) por um roteiro fraco de dar dó – cheio de clichês bregas pra tentar dar algum sentido à sua existência – até interpretações canhestras, o filme nem sequer consegue alçar voo.

 Pena que essa magia que Jackman tanto sonhara em levar para as telonas tenha ficado apenas no set de filmagem, pois o produto final é apenas um leve esboço do que ele poderia ter sido.

“Star Wars: Os Últimos Jedi”: o desgaste vem à tona.

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Numa década muito distante, George Lucas presenteou o mundo com um filme que seria um divisor de águas na indústria cinematográfica, no quesito “blockbuster”, pois além de gerar filas e filas nos quarteirões do cinema,  viraria fenômeno de vendas de produtos com o título do filme. “Star Wars” se tornaria a galinha dos ovos de ouro que todo engravatado de Hollywood sempre sonhara ter.

De lá pra cá, Lucas fechou duas trilogias e elevou seu patrimônio ao patamar de bilhões de dólares, até resolver que já era hora de pendurar as botas – de certa maneira – e colocar à venda os direitos de seu “universo”. Numa negociação bilionária, a Disney abocanhou o filão.

Sem tempo a perder e com todo o know-how sobre como fazer filmes de sucesso e produtos do mesmo – Mickey que o diga-, a empresa lançou um primeiro longa, dando início a uma nova trilogia. Porém, diferente de Lucas que fez sua segunda leva de filmes passados antes do longa original, os novos donos resolveram dar continuidade à história de Han Solo, Luke e Leia.

“O Despertar da Força” foi uma maneira de juntar os fãs que cresceram vendo os filmes da série – já coroas-, com a nova garotada que estaria conhecendo esses personagens pela primeira vez. Porém, mesmo com um saldo super positivo de bilheteria, o tiro saiu pela culatra com relação aos fiéis seguidores da saga.  Essa nova história nada mais era do que uma retalho dos melhores momentos dos três filmes originais, com uma pitada de efeitos especiais de última geração.

Mas como o interesse principal é ganhar dinheiro, claro,  dois novos filmes foram produzidos e lançados na sequência: “Rogue One”, que foi uma tacada de mestre, pois é um “spin of” (não faz parte da nova trilogia) e se passa momentos antes do começo do filme original – com direito a um roteiro e direção sensacionais-; e o tão aguardado “Os Últimos Jedi”, que estreia essa semana e é a bola da vez.

De cara já digo, os engravatados não cometeram o mesmo erro do primeiro. Esse segundo filme não remete a nada do que já foi visto antes, vira as páginas e anda pra frente.

Mesmo com personagens que apareceram no “Despertar” serem mais humanizados e a grande estrela da vez, Luke Skywalker (Mark Hamill numa ótima presença), ter uma participação essencial, o filme peca por um andamento devagar até mais da metade de sua duração – e olha que são quase duas horas e meia -, com uma trama arrastada e diálogos medianos, com direito a piadas muito bobas, e trilha over sublinhando cenas melodramáticas, nauseantes. Só quase pro final que certas surpresas acontecem – duas até bem boladas-, o filme ganha um pequeno fôlego, mas não passa disso.

Pra mim, já deu. Sei que vai ter aficionados falando sobre ser um roteiro um pouco obscuro, luke e Leia estão maduros, o bem e o mal andam juntos, blá, blá, blá. Mas, com todo o respeito pelo universo que amo desde moleque, forçar a barra está fora de cogitação. Foco nos Spin Off.

Trailer: “7 Days in Entebbe”, novo filme de José Padilha

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Entrou no ar o trailer de “7 Days in Entebbe”, o mais novo filme do diretor José Padilha (“Tropa de Elite 1 e 2”, “Robocop”). Baseado numa história real ocorrida em 1976, o filme narra o sequestro de um avião comercial da rota Tel Aviv- Paris por 4 terroristas que foi obrigado a pousar em Entebbe, na Uganda, no intuito de exigirem a libertação de 12 palestinos presos em Israel.

Contando com um elenco todo internacional que conta com nomes como Daniel Bruhl, Rosamund Pike, Padilha conseguiu colocar novamente em sua equipe seus “comparsas” brazucas que o acompanham desde sua estréia na ficção com “Tropa de Elite”, o diretor de fotografia Lula Carvalho e o montado Daniel Rezende.

Pelo que promete o trailer abaixo, tem tudo pra ser um filmão – estréia em Maio do ano que vem:

“Patti Cake”: Uma grata surpresa

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A princípio, ao ler a sinopse do filme, pareceu que eu assistiria a um daqueles enlatados  “mais do mesmo”, onde um personagem insosso, aparentemente sem valor algum, vai nos guiar através da sua luta por um lugar ao sol no intuito de tornar realidade seu grande sonho. Porém, depois dos créditos iniciais, fui obrigado a rever minha sensação de “Dejá Vù” ao ser apresentado a uma das personagens mais sensacionais dos últimos tempos: “Patti Cake”.

 Sim, a base do roteiro é exatamente aquele “feijão com arroz” descrito acima, porém, muito mais saboroso, suculento e requintado naquilo que pode haver de melhor num longa como esse: os diálogos.

 Na trama, Patti (Danielle Macdonald), uma gordinha que mora com a mãe e a avó numa casa no subúrbio, tem o sonho de se tornar uma famosa cantora de Rap. Ao lado dela nessa busca pelo estrelato está o seu melhor amigo Jheri (Siddarth Dhananjav), um indiano que trabalha como atendente numa farmácia. Porém, assim como nós encontramos obstáculos pelo caminho, Patti também tem os dela. Sem o apoio da mãe, uma alcoólatra que devido ao vicio teve uma promissora carreira como cantora encerrada prematuramente,  ela tem que se virar  financeiramente para apoiar a avó com problema de saúde. Assim, eles vão ao longo da jornada encontrando outros “desajustados” que, de alguma maneira, farão diferença em suas vidas.

 Aproveitando o ensejo, a escolha dos atores Danielle (Patti) e Siddarth (Jheri) é um gol de placa: a química entre eles é algo de fazer chorar de emoção qualquer produtor de elenco que se preze. Um achado único.

 Com uma mistura de gêneros  – drama, comédia e musical -,  esse excelente trabalho de estréia do diretor e roteirista Geremy Gasper – para o qual tiro o chapéu pelo primor no exercício de suas duas funções no projeto –  nos leva numa viagem emocional que trafega por momentos deliciosos que fazem rir, e muito,  passando por arrepios desmedidos a partir dos improvisos de Patti e suas letras geniais, até as viradas emocionantes vividas por ela e seus amigos.

“Patti Cake”, essa mais nova estrela no currículo do produtor brasileiro Rodrigo Teixeira, o novo midas da sétima arte, é sem dúvida nenhuma um deleite.