“Minha Obra Prima”: bom, mas nem tanto

3207241.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx

Em 2016, o diretor argentino Gastón Duprat, junto com seu conterrâneo Mariano Cohn, nos brindou com “Cidadão Ilustre”, um filmaço com roteiro primoroso, adocicado com direção e atuações impecáveis. Assim, ao ver que um novo filme de Duprat estava para chegar ao cinema – dessa vez assinando a direção sozinho-, não tinha como não ficar ansioso e cheio de expectativas. Porém, ignorando a máxima das máximas de não jogar todas as fichas numa única aposta, fui com tudo assistir “Minha Obra Prima” (Mi Obra Maestra) e sai de lá com uma mão na frente e outra atrás.

Longe de ser algo parecido com seu título, o filme tem um princípio de trama até bem interessante, com dois protagonistas excelentes (Luis Brandoni e Guillermo Francella) interpretando um pintor decadente e revoltado com a vida e o dono de galeria bonachão que faz de tudo para ajudar o amigo em vão. Os minutos iniciais que começa nos levando para dentro dessa história que aparenta tudo que vai ser bacana, acaba perdendo seu encanto rapidamente num desenrolar chato, sem graça, com uma reviravolta nada original, que mais parece um kinder ovo sem surpresa.

Infelizmente, mesmo com uma direção precisa de Duprat e atuações excelentes de Brandoni e Francella, esse filme com recheio típico argentino não levanta voo em território brasileiro.

 

Anúncios

“A Mula”: Eastwood primoroso

Screen-Shot-2018-10-04-at-12.12.34-PM

Depois de uma tremenda pisada na bola com o péssimo filme “15h17: Trem para Paris” (The 15:17 to Paris), Clint Eastwood volta com mais uma história baseada em um acontecimento real, só que dessa vez acerta um gol de placa em dose dupla.

Em “ A Mula” (The Mule), Clint, além de dirigir o filme com precisão de outrora, dá vida ao protagonista, o horticultor Earl Stone. Veterano da guerra da Coreia, Earl sempre passou a vida cultivando plantas e as vendendo em feiras pelo interior. Porém, com 24 horas do seu dia focado única e exclusivamente para o seu ofício, acabou deixando de lado sua esposa e sua filha. Agora, com 90 anos de idade e o avanço do mundo digital, realidade essa que ele sempre recusou a aceitar, seu negócio acaba falindo. Sem ter o que fazer, acaba aceitando um serviço de levar umas malas de uma cidade para outra, sem saber seu conteúdo, sendo muito bem pago por isso. Com os pedidos se tornando frequente e, rapidamente, conseguindo se reerguer financeiramente, ele acaba se vendo metido numa roubada com um cartel de drogas mexicano, ao mesmo tempo que tenta recuperar o tempo perdido com sua família.

Sem muita ação, mas com um profundo raio x do comportamento humano, a narrativa vai conduzindo o espectador com muita leveza e um delicioso senso de humor, com tiradas na medida para Clint e sua carismática persona.

Com um elenco que ainda inclui Bradley Cooper, como o policial que tem como objetivo descobrir quem é a famosa “mula”; Michael Peña, como seu parceiro; Lawrence Fishburne, seu chefe de policia um tanto durão; e Andy Garcia, como o traficante bonachão; o filme é um deleite. Uma tremenda oportunidade para se divertir e ver mais uma vez em ação de forma primorosa essa figura icônica do cinema mundial chamada Clint Eastwood.

ENTREVISTA EXCLUSIVA (VÍDEO): Produtor Rodrigo Teixeira

teixeira

ENTREVISTA exclusiva com o grande produtor de cinema Rodrigo Teixeira (” B1″,” Call Me By Your Name”, “O Filho Eterno”, “Indignação”, “Ciganos de Ciambra”, entre outros), onde fala sobre sua profissão, escolhas, gostos pessoais, vida cigana, obstinação, documentários e o que podemos aguardar com o novo governo com relação a produção audio visual brasileira.

“Bohemian Rhapsody”: SENSACIONAL!

mercury

Vamos direto ao ponto. Rami Malek não apenas interpreta, ele é. Os trejeitos, o andar, a voz e a alma rock and roll de Freddie Mercury, morto por complicações da AIDS em 1991, ressurgem através de Malek de maneira eletrizante em “ Bohemian Rhapsody”, a cinebiografia do lendário vocalista do Queen.

Dirigido quase em sua totalidade por Bryan Singer (“Os Suspeitos”, “X-Men”) – que foi substituído por Dexter Fletcher faltando pouco para terminar as filmagens devido a divergências com a produção e, principalmente, com Rami-, o filme narra a história do jovem carregador de malas no aeroporto de Hathrow (Londres), Farrokh Bulsara, até sua sagaz entrada no meio musical fundando com Brian May, Roger Taylor e John Deacon uma das bandas mais consagradas de todos os tempos.

Misturando drama com pitadas certeiras de humor, as quase duas horas e vinte de duração do filme ressaltam momentos importantes da vida de Mercury como sua primeira paixão, os primeiros discos e as criações de clássicos do grupo, o descobrimento de atração pelo sexo masculino, os conflitos com o pai – que queria que ele tivesse um emprego de verdade e se levasse a sério-, até o estouro da banda que o deixou mais egóico do que nunca, culminando na descoberta de ser portador do vírus HIV.

Com alicerces calcados numa trilha sonora fenomenal, a direção de Singer pinta e borda com maestria, deixando a montagem do consagrado John Ottman mais primorosa do que nunca, formando um picadeiro perfeito para a estrela da vez se consagrar.

Essa estrela, sem dúvida nenhuma, se chama Rami Malek (“Mr. Robot”). Sua performance avassaladora de Freddie é tão hipnótica que, muitas vezes, parece estarmos assistindo imagens nunca antes vistas do verdadeiro Mercury. É ver pra crer – vale ressaltar que seus companheiros de banda também estão sublimemente representados.

Mesmo com pequenas furadas, digamos assim, licenças poéticas- como, por exemplo, ao destacarem a performance de “Love of My Life” do Queen no Rock In Rio, só que com o festival acontecendo no final da década de 70 -, nos embarcamos na viagem musical de Freddie com sorriso largo no rosto até o final apoteótico, que nos faz arrepiar da cabeça aos pés, deixando muitos olhos marejados e muitos suspiro de felicidade e muita saudade no ar.

“O Primeiro Homem”: um grande acerto

landscape-1535559511-first-man-2

Com apenas 33 anos e dois excelentes filmes no currículo – “Whiplash” e “ La La Land”, ambos escritos e dirigidos por ele-, Damien Chazelle conseguiu carimbar seu nome no hall da fama do Oscar ao ser o mais jovem diretor a receber a estatueta dourada, elevando assim sua moral para decidir com muita liberdade os próximos projetos, tendo sempre na cabeça algo que o instiga a se superar cada vez mais: desafios.

Numa decisão um tanto radical, além de ir numa direção completamente diferente da seara musical, Damien resolveu apostar suas fichas em um roteiro não autoral, baseado numa história real, onde seu maior obstáculo seria recriar situações bastante conhecidas do povo americano, envolvendo um dos seus maiores heróis em se tratando de demonstração de poder, culminando num dos maiores feitos que seu pais conseguiu realizar: a “conquista” da lua.

Em “O Primeiro Homem” (First Man), a trama narra a história de vida do lendário astronauta Neil Armstrong (Ryan Gosling) até chegar na sua famosa missão espacial que o levou a se tornar o primeiro homem a pisar na lua, no dia 20 de Julho de 1969.

Repetindo novamente uma dobradinha de sucesso, a direção primorosa de Chazelle rege com muita precisão e delicadeza seu querido amigo, e excelente ator, Ryan Gosling, numa tensa jornada de um homem aficionado por sua profissão, o qual faz de tudo para alcançar seus objetivos – até mesmo se distanciar de sua esposa (Claire Foy numa interpretação incrível) e filhos-, e como isso vai, pouco a pouco, o colocando no limiar da sua sanidade física e mental.

E para ressaltar ainda mais esse universo conturbado no qual vivia Neil, vale ressaltar a primorosa fotografia e direção de arte que ajuda nos envolver por completo na atmosfera dos anos 60, ambiente esse que transitamos junto com o personagem, seja em momentos claustrofóbicos como nas viagens espaciais, quanto aqueles mais humanamente transitáveis, onde nosso herói se permiti sonhar.

No fim das contas, acima de tudo,  esse filme enfatiza o quanto a humanidade alcançou num curto espaço de tempo em que existimos e o quanto ainda estar por vir e será necessário fazer.

Damien Chazelle, missão cumprida.

“Nasce uma Estrela”: quase lá.

DSC_2077.dng

Depois de três adaptações para o cinema (em 1937 com Janet Gaynor e Fredrich March; em 1954 com Judy Garland e James Mason; e em 1976 com Barbra Streissand e Kris Kristofferson), a conturbada história de um músico famoso que ajuda uma jovem desconhecida a chegar ao estrelato, ao mesmo tempo que ele mesmo se afunda na carreira e na vida, ganha uma nova versão, estrelada e capitaneada pelas mãos do galã Bradley Cooper.

Com uma arriscada dupla função nas mãos, Cooper tenta fazer desse novo remake de “Nasce Uma Estrela” (A Star Is Born) um veículo não apenas para mostrar seu talento – que sem dúvida ele tem-, mas catapultar na esfera imagética a faceta atriz da musa pop Lady Gaga.

Tendo como referência principal o seu antecessor que, apesar de ser um longa ruim – muito por culpa do ego megalômano de Streisand-, acabou virando cult, essa empreitada de Bradley tem como grande destaque a química mais que perfeita entre ele e Gaga – justamente o que Barbra e Kristofferson não mostraram na telona.

Na trama, Jackson Maine (Bradley Cooper) é uma estrela do rock que sempre viveu entretendo multidões com seus discos e shows lotados, tendo como melhores amigos o alcool e drogas. Jackson é um homem que tem muitos demônios pessoais, já que sua tensão familiar mal resolvida o irmão Bobby (o grande Sam Elliott) pesa para os dois. As coisas mudam quando Ally (Lady Gaga) arrebata seu ouvido e seu coração. Porém,
quando ela se torna famosa e bem conhecida,  a música e a vida pessoal de Jackson tomam um caminho descendente com o alcoolismo e a depressão.

Com um roteiro bacana, os dois primeiros terços da trama nos conduzem tranquilamente pela história, nos envolvendo com os dramas dos personagens. Porém, no terceiro a coisa desanda. Além da sensação animada de outrora dar um repentino lugar ao cansaço – vide encheção de linguiça -, Cooper parece se deixar levar por um lado egóico ao se ver no monitor sob seu próprio comando que, sem pudor, acaba sendo um tanto auto – indulgente com suas cenas. Uma pena.

Nos resta assim buscar um certo fôlego com a incrível Gaga que, além de nos brindar com números lindos onde mostra seu perfeito domínio de voz ao cantar, defende com maestria e muita paixão o lado dramático de sua personagem, se consagrando com uma interpretação de dar inveja a muita atriz graduada.

“Jogador Número Um”: Habemus Spielberg!

20170722-ready-player-one-1100x619

 

Ano passado, quando esteve preste a lançar seu mais novo filme de ficção, o aguardadíssimo “Jogador Número Um” (Ready Player One), Steven Spielberg resolveu puxar o freio de mão diante do cenário que se instaurava na política americana e seus ataques à imprensa, vindo diretamente do “chefão” do país, Donald Trump. Da maneira que sabe fazer melhor, Spielberg resolveu dar seu recado à ele produzindo e lançando em tempo recorde o preciso “The Post”, onde radiografa a história real ocorrida em meados da década de 70, quando foram descobertos documentos secretos – “Pentagon Papers” – onde presidentes americanos (Truman, Eisenhower, Kennedy e Johnson) mentiram para o congresso sobre a derrocada que estava sendo a guerra do Vietnã e como essa descoberta repercutiu na mídia. O filme, que nos brindou com de Tom Hanks e Meryl Streep contracenando pela primeira vez, concorreu a dois Oscar e botou mais lenha na fogueira na batalha da imprensa e o fantoche presidencial americano.

Eis então que, finalmente, a poeira deu uma baixada e Steven nos presenteia com um filme que resgata o melhor do gênero que ajudou a consagrar sua reputação de mestre da sétima arte.

“Jogador Número Um” é baseado no livro de mesmo nome escrito por Ernest Cline. A história se passa em 2044, quando a humanidade se conecta no Oasis, uma utopia virtual, onde as pessoas podem viver o que sonham, interagir com outros jogadores e até se apaixonar. Mas o protagonista Wade Watts (Tye Sheridan, de “X-Men: Apocalipse”) tem como objetivo principal resolver o enigma do criador do Oasis (Mark Rylance, de “Ponte dos Espiões”), que escondeu uma série de pistas na realidade virtual para premiar quem resolvê-las com a herança de sua enorme fortuna – e até o próprio Oasis. Além de Wade, todos os habitantes vão fazer de tudo para conseguir o prêmio. Mas, mantendo a tradição dos heróis nos filmes de Spielberg, o jovem protagonista tem uma vantagem com relação aos outros, pois as chaves do enigma são baseadas numa cultura esquecida que ele domina: o entretenimento pop dos anos 1980.

Desde 2011, Steven vinha apenas dirigindo filmes realistas, focados em acontecimentos reais ( “ Ponte de Espiões”, “Lincoln”, “Cavalo de Guerra”), mas que não estavam agradando nem a crítica, nem o público. Em 2016 tentou reverter essa situação e fazer as pazes com o sucesso ao voltar “falar” com o público jovem/ infantil lançando o chato e insosso “O Bom Gigante Amigo”( The BFG). Uma tremenda bola fora.

Mas, como o pai do E.T. não é bobo nem nada, ao ler o livro de Cline, enxergou a história que precisava para arregaçar às mangas e se superar em todos os sentidos. E, pela graça divina, ele fez um golaço de placa.

Misturando realidade e efeitos especiais animados, o filme nos faz voltar a velha infância / juventude de forma graciosa, usando e abusando de varias referencias à cultura pop dos nos 80 e 90, assim como filmes da época como “De Volta para o Futuro”, “Homem de Ferro”, “Chucky”, entre outros. Mas isso tudo não está lá por acaso. Pois, o público alvo do filme são os “nerds”, ou “geeks”, e essas referencias são como eles veem o universo em que vivemos. Mas, a questão principal do filme, ou melhor, sua crítica, é sobre essa fixação pelo mundo virtual e os efeitos que isso pode ter nas pessoas. No entanto, este filme depende do seu imenso amor por esses elementos – você mesmo, leitor. Talvez muito disso venha do roteiro do autor do romance. Mas trazer esse fantástico universo às telas com tremendo apuro e perfeição não teria sido possível sem a paixão de alguém que desde sempre cresceu envolto num mundo de sonhos e imaginação. Muito Obrigado, Steven Spielberg.