ENTREVISTA EXCLUSIVA (VÍDEO): Produtor Rodrigo Teixeira

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ENTREVISTA exclusiva com o grande produtor de cinema Rodrigo Teixeira (” B1″,” Call Me By Your Name”, “O Filho Eterno”, “Indignação”, “Ciganos de Ciambra”, entre outros), onde fala sobre sua profissão, escolhas, gostos pessoais, vida cigana, obstinação, documentários e o que podemos aguardar com o novo governo com relação a produção audio visual brasileira.

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“Bohemian Rhapsody”: SENSACIONAL!

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Vamos direto ao ponto. Rami Malek não apenas interpreta, ele é. Os trejeitos, o andar, a voz e a alma rock and roll de Freddie Mercury, morto por complicações da AIDS em 1991, ressurgem através de Malek de maneira eletrizante em “ Bohemian Rhapsody”, a cinebiografia do lendário vocalista do Queen.

Dirigido quase em sua totalidade por Bryan Singer (“Os Suspeitos”, “X-Men”) – que foi substituído por Dexter Fletcher faltando pouco para terminar as filmagens devido a divergências com a produção e, principalmente, com Rami-, o filme narra a história do jovem carregador de malas no aeroporto de Hathrow (Londres), Farrokh Bulsara, até sua sagaz entrada no meio musical fundando com Brian May, Roger Taylor e John Deacon uma das bandas mais consagradas de todos os tempos.

Misturando drama com pitadas certeiras de humor, as quase duas horas e vinte de duração do filme ressaltam momentos importantes da vida de Mercury como sua primeira paixão, os primeiros discos e as criações de clássicos do grupo, o descobrimento de atração pelo sexo masculino, os conflitos com o pai – que queria que ele tivesse um emprego de verdade e se levasse a sério-, até o estouro da banda que o deixou mais egóico do que nunca, culminando na descoberta de ser portador do vírus HIV.

Com alicerces calcados numa trilha sonora fenomenal, a direção de Singer pinta e borda com maestria, deixando a montagem do consagrado John Ottman mais primorosa do que nunca, formando um picadeiro perfeito para a estrela da vez se consagrar.

Essa estrela, sem dúvida nenhuma, se chama Rami Malek (“Mr. Robot”). Sua performance avassaladora de Freddie é tão hipnótica que, muitas vezes, parece estarmos assistindo imagens nunca antes vistas do verdadeiro Mercury. É ver pra crer – vale ressaltar que seus companheiros de banda também estão sublimemente representados.

Mesmo com pequenas furadas, digamos assim, licenças poéticas- como, por exemplo, ao destacarem a performance de “Love of My Life” do Queen no Rock In Rio, só que com o festival acontecendo no final da década de 70 -, nos embarcamos na viagem musical de Freddie com sorriso largo no rosto até o final apoteótico, que nos faz arrepiar da cabeça aos pés, deixando muitos olhos marejados e muitos suspiro de felicidade e muita saudade no ar.

“O Primeiro Homem”: um grande acerto

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Com apenas 33 anos e dois excelentes filmes no currículo – “Whiplash” e “ La La Land”, ambos escritos e dirigidos por ele-, Damien Chazelle conseguiu carimbar seu nome no hall da fama do Oscar ao ser o mais jovem diretor a receber a estatueta dourada, elevando assim sua moral para decidir com muita liberdade os próximos projetos, tendo sempre na cabeça algo que o instiga a se superar cada vez mais: desafios.

Numa decisão um tanto radical, além de ir numa direção completamente diferente da seara musical, Damien resolveu apostar suas fichas em um roteiro não autoral, baseado numa história real, onde seu maior obstáculo seria recriar situações bastante conhecidas do povo americano, envolvendo um dos seus maiores heróis em se tratando de demonstração de poder, culminando num dos maiores feitos que seu pais conseguiu realizar: a “conquista” da lua.

Em “O Primeiro Homem” (First Man), a trama narra a história de vida do lendário astronauta Neil Armstrong (Ryan Gosling) até chegar na sua famosa missão espacial que o levou a se tornar o primeiro homem a pisar na lua, no dia 20 de Julho de 1969.

Repetindo novamente uma dobradinha de sucesso, a direção primorosa de Chazelle rege com muita precisão e delicadeza seu querido amigo, e excelente ator, Ryan Gosling, numa tensa jornada de um homem aficionado por sua profissão, o qual faz de tudo para alcançar seus objetivos – até mesmo se distanciar de sua esposa (Claire Foy numa interpretação incrível) e filhos-, e como isso vai, pouco a pouco, o colocando no limiar da sua sanidade física e mental.

E para ressaltar ainda mais esse universo conturbado no qual vivia Neil, vale ressaltar a primorosa fotografia e direção de arte que ajuda nos envolver por completo na atmosfera dos anos 60, ambiente esse que transitamos junto com o personagem, seja em momentos claustrofóbicos como nas viagens espaciais, quanto aqueles mais humanamente transitáveis, onde nosso herói se permiti sonhar.

No fim das contas, acima de tudo,  esse filme enfatiza o quanto a humanidade alcançou num curto espaço de tempo em que existimos e o quanto ainda estar por vir e será necessário fazer.

Damien Chazelle, missão cumprida.

“Nasce uma Estrela”: quase lá.

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Depois de três adaptações para o cinema (em 1937 com Janet Gaynor e Fredrich March; em 1954 com Judy Garland e James Mason; e em 1976 com Barbra Streissand e Kris Kristofferson), a conturbada história de um músico famoso que ajuda uma jovem desconhecida a chegar ao estrelato, ao mesmo tempo que ele mesmo se afunda na carreira e na vida, ganha uma nova versão, estrelada e capitaneada pelas mãos do galã Bradley Cooper.

Com uma arriscada dupla função nas mãos, Cooper tenta fazer desse novo remake de “Nasce Uma Estrela” (A Star Is Born) um veículo não apenas para mostrar seu talento – que sem dúvida ele tem-, mas catapultar na esfera imagética a faceta atriz da musa pop Lady Gaga.

Tendo como referência principal o seu antecessor que, apesar de ser um longa ruim – muito por culpa do ego megalômano de Streisand-, acabou virando cult, essa empreitada de Bradley tem como grande destaque a química mais que perfeita entre ele e Gaga – justamente o que Barbra e Kristofferson não mostraram na telona.

Na trama, Jackson Maine (Bradley Cooper) é uma estrela do rock que sempre viveu entretendo multidões com seus discos e shows lotados, tendo como melhores amigos o alcool e drogas. Jackson é um homem que tem muitos demônios pessoais, já que sua tensão familiar mal resolvida o irmão Bobby (o grande Sam Elliott) pesa para os dois. As coisas mudam quando Ally (Lady Gaga) arrebata seu ouvido e seu coração. Porém,
quando ela se torna famosa e bem conhecida,  a música e a vida pessoal de Jackson tomam um caminho descendente com o alcoolismo e a depressão.

Com um roteiro bacana, os dois primeiros terços da trama nos conduzem tranquilamente pela história, nos envolvendo com os dramas dos personagens. Porém, no terceiro a coisa desanda. Além da sensação animada de outrora dar um repentino lugar ao cansaço – vide encheção de linguiça -, Cooper parece se deixar levar por um lado egóico ao se ver no monitor sob seu próprio comando que, sem pudor, acaba sendo um tanto auto – indulgente com suas cenas. Uma pena.

Nos resta assim buscar um certo fôlego com a incrível Gaga que, além de nos brindar com números lindos onde mostra seu perfeito domínio de voz ao cantar, defende com maestria e muita paixão o lado dramático de sua personagem, se consagrando com uma interpretação de dar inveja a muita atriz graduada.

“Jogador Número Um”: Habemus Spielberg!

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Ano passado, quando esteve preste a lançar seu mais novo filme de ficção, o aguardadíssimo “Jogador Número Um” (Ready Player One), Steven Spielberg resolveu puxar o freio de mão diante do cenário que se instaurava na política americana e seus ataques à imprensa, vindo diretamente do “chefão” do país, Donald Trump. Da maneira que sabe fazer melhor, Spielberg resolveu dar seu recado à ele produzindo e lançando em tempo recorde o preciso “The Post”, onde radiografa a história real ocorrida em meados da década de 70, quando foram descobertos documentos secretos – “Pentagon Papers” – onde presidentes americanos (Truman, Eisenhower, Kennedy e Johnson) mentiram para o congresso sobre a derrocada que estava sendo a guerra do Vietnã e como essa descoberta repercutiu na mídia. O filme, que nos brindou com de Tom Hanks e Meryl Streep contracenando pela primeira vez, concorreu a dois Oscar e botou mais lenha na fogueira na batalha da imprensa e o fantoche presidencial americano.

Eis então que, finalmente, a poeira deu uma baixada e Steven nos presenteia com um filme que resgata o melhor do gênero que ajudou a consagrar sua reputação de mestre da sétima arte.

“Jogador Número Um” é baseado no livro de mesmo nome escrito por Ernest Cline. A história se passa em 2044, quando a humanidade se conecta no Oasis, uma utopia virtual, onde as pessoas podem viver o que sonham, interagir com outros jogadores e até se apaixonar. Mas o protagonista Wade Watts (Tye Sheridan, de “X-Men: Apocalipse”) tem como objetivo principal resolver o enigma do criador do Oasis (Mark Rylance, de “Ponte dos Espiões”), que escondeu uma série de pistas na realidade virtual para premiar quem resolvê-las com a herança de sua enorme fortuna – e até o próprio Oasis. Além de Wade, todos os habitantes vão fazer de tudo para conseguir o prêmio. Mas, mantendo a tradição dos heróis nos filmes de Spielberg, o jovem protagonista tem uma vantagem com relação aos outros, pois as chaves do enigma são baseadas numa cultura esquecida que ele domina: o entretenimento pop dos anos 1980.

Desde 2011, Steven vinha apenas dirigindo filmes realistas, focados em acontecimentos reais ( “ Ponte de Espiões”, “Lincoln”, “Cavalo de Guerra”), mas que não estavam agradando nem a crítica, nem o público. Em 2016 tentou reverter essa situação e fazer as pazes com o sucesso ao voltar “falar” com o público jovem/ infantil lançando o chato e insosso “O Bom Gigante Amigo”( The BFG). Uma tremenda bola fora.

Mas, como o pai do E.T. não é bobo nem nada, ao ler o livro de Cline, enxergou a história que precisava para arregaçar às mangas e se superar em todos os sentidos. E, pela graça divina, ele fez um golaço de placa.

Misturando realidade e efeitos especiais animados, o filme nos faz voltar a velha infância / juventude de forma graciosa, usando e abusando de varias referencias à cultura pop dos nos 80 e 90, assim como filmes da época como “De Volta para o Futuro”, “Homem de Ferro”, “Chucky”, entre outros. Mas isso tudo não está lá por acaso. Pois, o público alvo do filme são os “nerds”, ou “geeks”, e essas referencias são como eles veem o universo em que vivemos. Mas, a questão principal do filme, ou melhor, sua crítica, é sobre essa fixação pelo mundo virtual e os efeitos que isso pode ter nas pessoas. No entanto, este filme depende do seu imenso amor por esses elementos – você mesmo, leitor. Talvez muito disso venha do roteiro do autor do romance. Mas trazer esse fantástico universo às telas com tremendo apuro e perfeição não teria sido possível sem a paixão de alguém que desde sempre cresceu envolto num mundo de sonhos e imaginação. Muito Obrigado, Steven Spielberg.

“15h17- Trem para Paris”: decepção total

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Clint Eastwood parece estar padecendo do mesmo mal que aflige Ridley Scott com o passar dos anos: o cansaço criativo. Idade pesando? Talvez. Fato é que, a cada obra lançada, ambos já não demonstram nem de longe a sagacidade de outrora, quando fizeram marcos da sétima arte como “Alien” e “Blade Runner”, no caso de Scott, e “Os Imperdoáveis” e “Bird”, no caso de Eastwood.

Depois do fracasso no resgate do seu famoso monstrengo com “Alien: Covenant”, Ridley tentou se reconciliar com os fãs lançando o tão aguardado “Todo o Dinheiro do Mundo”, que acabou sendo uma tremenda bola fora. Agora, Eastwood , depois do fraquíssimo “Sully”, onde nos brindou com um Tom Hanks canastra, tenta se reerguer com mais uma história verídica para fechar a trinca que começou com o razoável “Sniper Americano”:  “15h17 – Trem pra Paris”. Infelizmente, um trabalho desastroso em todos os sentidos.

Mais do que inspirado no ocorrido na tal viagem de trem para Paris em 2015, onde 3 jovens militares americanos impediram a ação de um terrorista que, a priori, liquidaria todos os passageiros, Eastwood resolveu fazer algo inusitado: filmar a narrativa do fato usando os próprios amigos, em vez de escalar atores para interpretá-los. O que parecia algo muito arriscado, já que nenhum dos três tinha experiência em frente às câmeras, até que não foi de todo mau – dois levam a responsa na boa e apenas um peca na arte de ser ele mesmo -. Porém, já que o tempo da ação em si não dura mais do que alguns minutos, o que mal daria um curta – pois logo que o terrorista saiu do banheiro armado e atingiu um passageiro, os amigos entraram em ação e o imobilizaram-, Eastwood resolveu voltar no tempo e contar como os “heróis “ se conheceram, indo da infância, passando pela adolescência, até chegar na fatídica viagem. E foi exatamente ai que ele errou feio.

Pra começar, a escolha dos atores mirins foi péssima, chegando ao cúmulo de um deles olhar pra câmera algumas vezes. A fase da adolescência idem, onde além de interpretações forçadas, os diálogos que já eram ruins com os moleques ficam mais enfadonhos ainda.  Quando os verdadeiros protagonistas aparecem, aí começa o “samba do criolo doido”.

Desde situações extremamente caricatas, como a razão para se alistarem nas forças armadas, passando por crises existenciais e lições de moral, até o motivo que os levou a viajar, a história é jogada para o público sem nexo ou qualquer tipo de empatia. Ao chegarem na Europa, então, parece que Eastwood resolveu deixar a narrativa de lado para mostrar pontos turísticos – com ênfase em certos locais de consumo, destacando seus nomes – colocando os personagens em situações que não acrescentam nada à trama – e os diálogos idiotas se destacando cada vez mais- , além de esbarrarem com pessoas que parecem que vão acrescentar algo e somem do nada. A sensação que temos é que o filme ainda não começou. Uma catástrofe.

E com esse andar da carruagem, eis que deparamos com o verdadeiro motivo do filme ter sido feito: o principio de ataque no trem, seguido do final “apoteótico” deles sendo condecorados pelo presidente da França pelo ato de bravura. Só que até ai, já se passaram uma hora e vinte de filme. Ou seja, 99% da duração: o filme tem uma hora e meia.

Ao acender das luzes, a sensação que fica é a de termos perdido nosso tempo vendo mais um exemplo de oportunismo americano barato, de forçar uma barra para fazer o que lhes é de praxe:  afagar o próprio rabo.

“Trama Fantasma”: a arte da manipulação

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Que Paul Thomas Anderson e Daniel Day-Lewis são mestres em seus ofícios, todos nós já sabemos. Agora, quando os dois se juntam para serem peças da tapeçaria de um mesmo filme, com certeza o resultado é uma obra primorosa.

“Sangue Negro” ( There Will Be Blood), a primeira dobradinha de ambos, já é considerado um dos melhores filmes já feitos na história do cinema. E eu assino embaixo. Porém, se manter o mesmo time de craques fosse fator predominante para golear sempre que entrasse em campo, seria loucura ousar jogar contra o Barcelona.

Metáforas à parte, depois de um hiato de dez anos, Anderson e Lewis retomaram a tão consagrada parceria para mais um pretensioso espetáculo. Contudo, mesmo com tanta pompa e cheio de méritos, “Trama Fantasma”(Phantom Thread) não consegue alçar um vôo tão alto quanto seu antecessor.

Sim, sem dúvida nenhuma o filme é muito elegante, delicado e precisamente bem executado – desde a direção de fotografia, de arte, figurino; até a direção primorosa de Paul e as interpretações excepcionais de Daniel e “suas mulheres”, as atrizes Vicky Krieps e Lesley Manville- Entretanto, o roteiro – assinado pelo próprio diretor -, esse sim, o fio que ajusta todos acima, peca um tanto na sua narrativa.

Na trama, Day Lewis interpreta um design de moda chamado Reynolds Woodcock, um sujeito super conceituado, mas bastante obcecado com ordem e simetria – tanto no trabalho quando na sua vida pessoal. Num belo dia, se apaixona por uma jovem garçonete, Alma, (Krieps), que vai lhe servir como uma modelo de teste dos vestidos feitos por ele e nada mais. Porém, cansada de ser apenas uma peça no seu “tabuleiro teatral” chamado vida, ela começa um confronto com ele. Tudo sob os olhares e conselhos, para ambos os lados, da irmã de Woodcock/ governanta da casa, Cyril (Lesley).

Assim, embalado nessa trama e no título capcioso do filme, Anderson mete meio que o pé pelas mãos com pequenas pretensões sobre a arte de se criar alta costura, e mensagens secretas envoltas nos vestidos feitos por Woodcock e seus pesadelos fantasmagóricos. As belíssimas cenas entre ele e sua esposa, não passa apenas da beleza estética em si do que algo realmente interessante. Não há nenhuma revelação relevante ou qualquer tipo de uma visão analítica mais profunda da psique humana – a qual esperamos ansiosamente em se tratando de um longa do idolatrado diretor.

Com um andamento lento, em quase duas horas e 15 de duração, o longa não fica impregnado em nossa memória – a não ser a lembrança de ver belos vestidos, bela fotografia e uma música um tanto chata que serve pra preencher lacunas-. Ao contrário de “Sangue Negro”, onde o filme fala por si só, com “Trama Fantasma” Anderson tentou fazer exatamente com o público o que seu criativo Woodcock faz com todos ao seu redor: a arte da manipulação.