“O Estranho Que Nós Amamos”: Bela superficialidade

The Beguiled

 

Sofia Coppola é uma daquelas pessoas que, mesmo tentando se esquivar ao máximo, vão ser sempre “perseguidas” pela sombra do pai. Uns podem dizer que ela é tão boa quanto ele, enquanto outros são categóricos em afirmar que ainda falta muito arroz com feijão para chegar aos pés do seu patriarca. Para mim, a querida filha do mestre Francis, com toda sua pompa e sutileza, ainda se encontra na coluna do meio. Sim, seus dois primeiros suspiros na seara autoral da direção– “Virgens Suicidas” e “Encontros e Desencontros”- são duas obras sublimes, de fato. Porém, depois dessa dobradinha que colocou seu nome nas marquises mundo afora, Sofia parece ter colocado sua criatividade em “ponto morto” e fez apenas filmes superficiais, monótonos e sem muito a dizer.

Tentando resgatar os aplausos de outrora, a “queridinha do papai” resolveu poupar um pouco de trabalho e entrou para o seleto grupo de diretores que fazem do remake a solução para o marasmo criativo. Seu pretensioso alicerce de salvação é a refilmagem de “O Estranho que nós Amamos” (The Beguiled), clássico dos anos 70, a terceira das quatro dobradinhas do diretor Don Siegel com Clint Eastwood – as outras foram “Meu nome é Coogan”, “Os Abutres tem Fome” e “Dirty Harry”.

Na trama, em plena Guerra Civil americana, um soldado ferido, John McBurney (Colin Farrell), é encontrado na floresta pela jovem Amy (Oona Laurence). Ela o leva para casa onde mora, um internato de mulheres gerenciado por Martha Farnsworth (Nicole Kidman). Lá, elas decidem cuidar dele até sua recuperação e, em seguida, entrega-lo às autoridades. O problema é que, aos poucos, cada um das mulheres vai se interessando por ele, especialmente Edwina (Kirsten Dunst) e Alicia (Elle Fanning).

Comparando com o filme de Siegel – que é muito mais fiel ao livro que inspirou o filme – a de Sofia deixa muito, mas muito a desejar. Tirando os aspectos estéticos, como a fotografia e direção de arte – que são maravilhosos-, o filme peca pela caretice fofa irritante que ela resolveu imprimir na tela. Dentre tantas coisas cruciais na versão original que ela se quer chegou a esboçar referência– como as cenas de apelo sexual e as de violência – ela ainda tirou todo o rico desenvolvimento da personagem Martha e a história do relacionamento incestuoso dela com seu irmão, bem como os flashbacks que revelaram a verdadeira natureza conivente de John McBurney e o aspecto de fantasia sexual desses personagens, que foi a base para seus motivação na história. Além disso, a direção dos atores deixa a desejar pelo simples fato deles, muitas vezes, parecerem apenas estarem recitando seus diálogos decorados do que qualquer outra coisa.

Assim sendo, de uma maneira irônica, com mais essa pisada de bola, a senhorita Coppola mostra que as palavras coragem e arriscar estão definitivamente longe do seu alfabeto cinematográfico, constatando mais uma vez que a única herança que ela herdou do seu pai foi apenas o sobrenome.

“Dunkirk”: um bom filme,mas longe de ser o melhor do ano.

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Em 2000, o inglês Christopher Nolan deu o ar de sua graça na telona com o lançamento de “Amnésia”, um filme de baixo orçamento, mas que contou com a tríade de um filme de sucesso – roteiro, direção e atores- conseguiu colocar crítica e público no mesmo bojo. Com seu nome em alta, o que lhe deu direito a ter um orçamento mais polpudo, sua próxima tacada foi o misterioso drama “Insônia”, onde sua direção impecável nos brindou com uma das melhores atuações nas carreiras de Al Pacino e Robin Williams. Assim sendo, para ser chamado para uma mega produção com um orçamento estrondoso e direito a opinar em todos os quesitos na produção, foi um pulo. “Batman Begins”, sua terceira tacada de mestre, não apenas elevou seu nome ao estrelato mundial, como o tornou uma grande referencia na indústria.

Dai em diante, Nolan foi nos brindando com um petardo atrás do outro – “O Grande Truque”, “ Batman: O Cavaleiro das Trevas”, “ A Origem”, “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge” e “Interstellar” -, estabelecendo a marca registrada de um diretor que se esforça para juntar sempre o melhor roteiro – de preferência não linear- com o que há de mais novo em tecnologia, no intuito de inovar e, claro, surpreender o público.

Em sua mais nova empreitada, “Dunkirk”(Dunkirk), ele resolveu dar um passo a mais no lado técnico – onde priorizou a captação de imagens usando câmeras IMAX -, e outro passo simplesmente para trás – dependendo do ponto de vista- voltando aos primórdios de sua carreira, onde, além de exercer a função de diretor, fazia também o papel de roteirista. Partindo dessa premissa, o motivo dessas mudanças radicais foi o fato de pela primeira vez ele estar filmando algo baseado em fatos reais. No caso a debandada em massa de soldados ingleses da cidade francesa de Dunkirk, quando foram cercados na praia pelos alemães durante a segunda guerra mundial.

Com seu primor técnico de dar inveja a Spielberg e Scorsese, a escolha do IMAX para ser a base de sustentação da narrativa foi realmente um grande acerto – os enquadramentos, fotografia, sons dos tiros, aviões e explosões ganham uma grandiosidade única -. Porém, de outro lado, Nolan da uma certa pisada na bola no roteiro. Sua narrativa não linear e as resumidas histórias pessoais de alguns personagens só consegue segurar a onda até dois terços do filme, pois, depois, mesmo com a “ajuda” desses efeitos técnicos primorosos, a sensação de cansaço devido a repetição de takes mais do mesmo e cenas que não dizem muito fica latente. Infelizmente.

“Dunkirk” é um filme que sim, deve ser visto. Entretanto, única e exclusivamente numa sala IMAX. Pois, exibido numa outra sala qualquer, seu grande trunfo técnico será apenas um esboço e o efeito kriptonita entrará em ação.

“De Canção em Canção”: Ver ou não ver? Eis a questão.

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Desde 1998 quando resolveu voltar com a corda toda à sétima arte depois de dez anos sem produzir, Terrence Malick nos brindou com pérolas como o maravilhoso “Além da Linha Vermelha”, o controverso “ O Novo Mundo” e o peculiar “Árvore da Vida”. Depois disso, tomado por uma vontade insaciável de filmar como se não houvesse amanhã – pois mal começou a finalizar um filme e já estava no set rodando o próximo-, Malick acabou lançando dois longas um tanto sacais – “Amor Pleno” e “Cavaleiro de Copas”- que parecem ter saído da mesma forma criativa, onde a depressão e filosofia existencial norteiam de forma exagerada o roteiro do começo ao fim, deixando o espectador à deriva de bocejos intermináveis. Porém, ainda não dando por satisfeito, Terrence resolve bater novamente na mesma tecla inspiradora – por sinal, já bem desgastada- e lançou o melancólico, lindo e tedioso, “De Canção em Canção” (Song to Song).

Tendo como pano de fundo a cena musical do Texas e seus festivais, o novo filme do diretor foca em dois casais interligados – dois compositores ( Rooney Mara e Ryan Gosling), um produtor (Michael Fassbender) e uma garçonete (Natalie Portman) – que buscam o sucesso em suas vidas no meio de um universo regado a muita sedução e traições.

Mesclando belas imagens produzidas pelo consagrado mestre da fotografia, o oscarizado Emmanuel Lubezki, com performances entediantemente excitantes de seus lindos protagonistas, Malick demonstra nitidamente que seu calcanhar de aquiles é a base dramatúrgica de seus filmes. Não adianta intercalar músicas e efeitos sonoros para tentar distrair o espectador, elaborando uma desconexão auto – indulgente, onde muito dos diálogos proferidos por certos personagens seriam pratos cheios num divã freudiano, se esses longos takes aparentemente aleatórios sobrepostos com um monólogo interior quase inaudível, deixam no ar aquela sensação de que o diretor não está querendo -ou tem medo – de entregar uma cena sustentada em que personagens realmente trocam algum diálogo significativo.

“De Canção em Canção” tem junto de seu elenco de peso o quesito técnico e visual como fator principal para o público mostrar algum tipo de interesse pelo filme, contudo, conseguir prender a atenção do mesmo com a sensação ininterrupta de Deja Vu depressivo beirando a exaustão, com certeza será uma tarefa árdua.

 

“O Círculo”: deixou a desejar.

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Sabe aquele tipo de filme com potencial de sobra para ser um grande campeão de bilheteria, laureado ainda com ótimas críticas, mas, que, infelizmente, não passa de um esboço do que poderia ter sido? Pois é, esse é “O Círculo” (The Circle).

Dirigido por James Ponsoldt, essa adaptação para o cinema do livro de mesmo nome, escrito por Dave Eggers, teve a seu favor o que há de melhor na tecnologia em efeitos especiais, algo fundamental em se tratando de uma história que fala justamente sobre isso: avanço tecnológico. Porém, pecou de forma grosseira na sua base de sustentação : o roteiro.

A trama, que é bem atual e relevante, já que estamos cada vez mais imersos no mundo virtual, gira em torno de uma adolescente que consegue o emprego dos sonhos ao ser contratada pela maior empresa de tecnologia do mundo – um filhote anabolizado do Google com o Facebook- , mas se vê numa enrascada quando se torna parte dos experimentos da mesma.

Com diálogos precários, muitas vezes bobos demais, o desenrolar da história fica bem prejudicado pois, além de aparecer personagens maçantes em situações nada a ver só, pra tentar tapar buracos e forçar uma barra pra dar sentido a trama – como a presença enigmática de Ty, interpretado por John Boyega-, as reviravoltas são de uma sutileza singular de fazer arrepiar da cabeça aos pés as espinhas de Doc Comparato e Robert McKee. Nem Tom Hanks e Emma Watson, as estrelas da empreitada, conseguem salvar algum resquício de interesse com suas interpretações rasas e no modo piloto automático.

Assim sendo, o objetivo do filme, que seria de instigar o espectador com perguntas interessantes sobre o rumo dos avanços tecnológicos, acaba se enrolando tanto que não consegue se quer “responder” as questões que se propõe alavancar.

“A Múmia”: uma tremenda bola fora.

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Recentemente, os estúdios Universal anunciaram uma repaginada no universo dos seus monstros clássicos como o Frankenstein, Fantasma da Ópera, Corcunda de Notre Dame, entre outros, sob a alcunha de “Dark Universe”, no intuito de dar um novo frescor a eles. Para dar o pontapé inicial, o filme escolhido foi “A Múmia”, com nada mais nada menos que o astro Tom Cruise capitaneando a empreitada.

Tendo como base o cultuado filme de mesmo nome de 1932, de Karl Freund, com Boris Karloff aterrorizando como o personagem título, a nova versão é simplesmente uma bola fora em todos os aspectos.

Pra começar o roteiro é precário, com diálogos superficiais, muitas vezes bobos – achando que está fazendo graça-, e desanda numa confusão só do meio pro final – e olha que dentre os três roteiristas , dois são os talentosos Christopher McQuarrie e David Koepp- . Agora, Cruise, que desde que começou a saga da franquia milionária “Missão Impossível” e se consagrou como um herói do gênero ação, parece um peixe fora d’água no meio de toneladas de efeitos especiais. Com uma atuação estilo piloto automático ao interpretar Nick Morton, um caçador de tesouro, fica bem claro que essa escalação totalmente equivocada foi apenas para dar uma “força” certeira, vide $$$$, na bilheteria.  Quem diria, até Brendan Fraser, o pseudo-ator, se saiu melhor com sua versão do mesmo clássico que, devido ao grande sucesso, acabou virando uma trilogia.

E nem a presença de Russel Crowe, um “doutor misterioso”, chega a ser interessante. As poucas cenas que os dois astros contracenam – pela primeira vez em um filme- são tão mecânicas, sem feeling algum, que parece que estamos vendo dois robôs em ação.

Cansativo, essa é, sem dúvida nenhuma, o melhor adjetivo para definir essa mancada universal – sim, o trocadilho é uma homenagem a esse fiasco-. Shame on you, Cruise!

Trailer:

Trailer “American Made”: Tom Cruise, Doug Liman e César Charlone.

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Entrou no ar hoje o primeiro trailer de “American Made”, dirigido por Doug Liman (“Identidade Bourne”, “Vamos Nessa!”) e estrelado pro Tom Cruise.

Repetindo a parceria que fizeram no filme de ficção científica “O Dia Depois de Amanhã” ( The Edge of Tomorrow), Cruise e Liman contam agora uma história real  de Barry Seal, piloto americano( recrutado pela CIA) que traficou armas e drogas (para o Cartel de Medellín) nos anos 80.  O filme traz o começo de Seal como piloto comercial e a oportunidade para trabalhar levando drogas para os Estados Unidos.

Um grata surpresa para nós, brasileiros, é a presença de César Charlone (“Cidade de Deus”, “Ensaio Sobre a Cegueira”) – um dos maiores diretores de fotografia do Brasil – nos créditos do filme. Como podemos ver no trailer, as belas imagens comprovam sua reputação como mestre da luz.

Vamos ao trailer:

 

“Mulher-Maravilha”: uma ode às mulheres

 

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  • Crítica de Daniel Braga

Venho de um longa lista de contentamento e algumas decepções com o subgênero de Super-heróis no cinema, especialmente desde a segunda parte da trilogia do “Batman” de Christopher Nolan. Nada que a editora DC produziu tem me alegrado, e alterno entre gostar com ressalvas de algumas produções dos Studios Marvel , FOX e Sony e detestar outros desses mesmos. Posso dizer, como DCnauta que o filme da Princesa Amazona é gratificante. A escolha de deslocar a origem da personagem tradicional da Segunda Guerra e não atualiza-la como os demais heróis desta Era de Ouro ou da Era de Prata, tornando ela mais internacional e menos uma “outra filha adotiva” dos Estados Unidos, como o Superman, é perfeita. Alias, a Warner ter escolhido Patty Jerkins ( “Monster”) como diretora de um filme de guerra é já algo para ser comemorado. Também é importante ressaltar o protagonismo alcançado pela personagem principal, cujo o ponto de vista do filme é o dela em quase 90% do tempo. É também uma vitória para o longo caminho percorrido pelas mulheres, especialmente nesse subgênero em que as personagens femininas, sejam as do elenco de apoio ou mesmo as próprias super-heroínas, pois sempre acabam caindo em alguma situação que falham e/ou precisem ser salvas pelos super-heróis masculinos (nos cinemas, na tevê a história muda de figura).

A origem da heroína tem como fonte maior o trabalho George Perez, que reinventou a personagem criada por William Mouton Martson em All Star Comics #8, em
1941. Perez recontou a história da personagem na mesma época que tantos outros heróis da DC foram reformulados, mas é recheada de conceitos atuais da nova reformulação dos 2010s que inspira os demais filmes do Universo da editora no cinema. Ao contrario de “Man of Steel”, “Batman Vs Superman: The Origino f Justice” e “Suicide Squad”, o filme perde a visão sombria que é característica estética contemporânea dos quadrinhos, jogando uma luz – no melhor sentido da palavra – nas incríveis coreografias de ação e no tom épico. Algo que nem um dois filmes do Thor conseguiu alcançar totalmente em se tratando de um super de origem mitológica. O ritmo inicial do filme não é acelerado como é comum entre os filmes desse subgênero e, talvez, por isso mesmo, prepare o espectador para toda a grandiosidade. Vale ressaltar também que, com relação aos diálogos, as piadas são bem colocadas e nada excessivas.

O filme empolga e engrandece a personagem e seus coadjuvantes – destaque para a Antiope de Robin Wright e o Steve Trevor de Chris Pike -, que ocasionalmente ganham o protagonismo como um bastão de corrida olímpica, mas que sempre volta para a “Mulher-Maravilha” de Gal Gadot. A principio, sua voz e pronuncia em inglês (o que muda quando ela fala outras línguas), além da sua interpretação, não agradam totalmente todos os fãs. Mas, seu carisma e, principalmente, a vivência do personagem -o quanto ela acredita ser a versão atual primeira super-heroína dos quadrinhos – conquista a plateia. O vilão, Ludendorff Danny Huston, porém, alterna entre bons e maus momentos, enquanto a Dr. Veneno de Eleana Anaya é pouco explorada,  sobrando para o antagonista masculino os monólogos que poderiam ter sido suprimidos na épica batalha final. O elenco é composto por estrelas cumprindo seu papel como David Twellis, Connie Nielsen entre outros. A tradicional equipe de suporte/ Alivio cômico é divertida sem ser uma piada o tempo todo, dando pontos de vistas bem pertinentes no processo de Diana para entender as sutilezas e idiossincrasias da sociedade moderna.

Alguns momentos do filme são ressaltados quase em excesso, como a linguagem da câmera lenta, recurso adorado por Zack Syder que,  até pouco tempo, supervisionava o universo DC . Mas, no geral, isso não compromete em nada as cenas de ação e a força sentimental em muitas das cenas dramáticas.

“Mulher- Maravilha” é, sem duvida, muito bem vinda, principalmente pelos fãs,  com sua chegada redentora e, digamos assim, mitológica.